Cuidado com o terapeuta que traumatiza – Rafael Cardoso Psicanalista – Psicanálise na Prática



Eu não costumo comentar qualquer absurdo que aparece nas redes sociais. Mas, quando um homem em cuidados paliativos tenta se despedir de sua audiência e alguém que se apresenta como terapeuta transforma essa despedida em deboche diante de centenas de pessoas, ficar calado também começa a produzir um efeito.

O Lito está enfrentando o avanço de uma doença incurável. Mesmo assim, seu sofrimento foi tratado como incapacidade de “aceitar a vida como ela é”. Como se a morte pudesse ser enfrentada com uma frase pronta. Como se sentir medo, chorar e se despedir fossem sinais de fracasso emocional.

Ferenczi mostra que uma experiência traumática se torna ainda mais destrutiva quando encontra o desmentido: alguém vê o sofrimento, mas o diminui, banaliza ou trata aquela dor como exagero. Nesse sentido, o deboche não comenta apenas uma violência. Ele repete sua estrutura.

Vladimir Safatle aponta, em A ameaça interna, que essa perda do ato de se sensibilizar com o sofrimento dos outros é uma característica fascista. Porque, se eu não sinto nada pelo outro, ele vai recorrer a quem quando sofrer uma violência e todo mundo ao redor resolver que aquela dor não é problema seu?

Quando alguém se apresenta como terapeuta, existe uma responsabilidade ética sobre aquilo que faz com a vulnerabilidade humana, inclusive nas redes sociais. Essa posição não pode servir como autorização para humilhar, explorar sofrimento ou transformar crueldade em engajamento.

Ter responsabilidade ética também significa saber que uma audiência aprende conosco. Aprende a acolher, mas também pode aprender a debochar. Aprende a reconhecer a dor ou a abandoná-la.

Nem toda insensibilidade dita com convicção é sinal de força. Às vezes, é apenas violência recebendo aplausos.

Referências:

FERENCZI, Sándor. Análises de crianças com adultos (1931). In: Psicanálise IV. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

FERENCZI, Sándor. Confusão de língua entre os adultos e a criança (1933). In: Psicanálise IV. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

SAFATLE, Vladimir. A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais. São Paulo: Ubu Editora, 2026.

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3 Comments

  1. Esse senhor tanto quanto o politico fascista, que aguarde o dia deles . Vai ser muito triste .Deve ser uma pessoa horrível. Não gostaria jamais de cruzar com alguém tão terrível. Nem com o politico fascista que não preciso nem desejar o mal .Ele próprio ja atraiu o mal pra ele.

  2. Concordo quanto ao lito, mas usar a imagem do Bolsonaro criticando a recomendação do mandeta (que era de ficar em casa até começar a sentir falta de ar) é de uma falta de carater sem tamanho, provavelmente vc está procurando holofotes como o outro abobado de vermelho.

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