ENTREI NO SUBMUNDO DA NOITE JAPONESA | O lado do Japão que só aparece depois das 23H



Neste vídeo, caminho sozinho por Nagarekawa, uma das principais regiões de vida noturna de Hiroshima, tentando entender o que acontece nessas ruas depois das 23h. Entre letreiros empilhados, becos estreitos, bares, izakayas, casas de massagem, mulheres esperando clientes e homens de terno parados nas esquinas, descubro uma cidade muito diferente daquela Hiroshima dos memoriais, museus e cartões-postais que conhecemos durante o dia.
O que começou como uma caminhada espontânea para fotografar a noite japonesa acabou me levando para uma história muito maior.

Falo sobre os yami-ichi, os mercados negros que surgiram no Japão depois de 1945, sobre a formação do submundo criminal do pós-guerra e sobre a relação dessa região com a história da yakuza em Hiroshima e Kure. É também por isso que lembro de Batalhas Sem Honra e Humanidade, de Kinji Fukasaku, um dos filmes mais importantes do cinema de yakuza japonês e uma das imagens que eu já carregava de Hiroshima antes mesmo de visitar a cidade.
Mas o vídeo também tenta entender como funciona a noite japonesa hoje.

Durante a caminhada encontro os chamados muryō annaijo (無料案内所), pequenos postos de informação que encaminham clientes para bares e estabelecimentos adultos. A partir deles, entro numa discussão sobre a legislação japonesa, o fūzoku (風俗), os kyabakura, sunakku, os aliciadores de rua e as diferentes categorias que formam a enorme indústria de entretenimento noturno do Japão.
No caminho, ainda faço uma grande digressão sobre kanji e hanja, tentando decifrar palavras japonesas através do coreano, e descubro como termos aparentemente inocentes como “estética masculina”, “rejuvenescimento” e “massagem” podem adquirir significados completamente diferentes dependendo da rua, do prédio e do horário.

E tudo isso acontece a pouco mais de um quilômetro do hipocentro da bomba atômica.
Durante o dia, Hiroshima parece organizada em torno de uma manhã específica: 6 de agosto de 1945. Mas Hiroshima continuou existindo depois daquele dia. As pessoas continuaram trabalhando, bebendo, abrindo negócios, cometendo crimes, se apaixonando, procurando companhia e tentando sobreviver.
Talvez caminhar por Nagarekawa à noite seja também uma maneira de encontrar essa outra Hiroshima.
Não apenas a cidade que foi destruída, mas a cidade que continuou vivendo.

Tópicos principais do vídeo:

• Nagarekawa e a vida noturna de Hiroshima depois das 23h;
• Os yami-ichi e os mercados negros do Japão pós-guerra;
• Yakuza, Hiroshima e o cinema de Kinji Fukasaku;
• Batalhas Sem Honra e Humanidade e as guerras de gangues da região;
• Como funcionam os muryō annaijo (無料案内所);
• Prostituição, fūzoku e as particularidades da legislação japonesa;
• Kyabakura, sunakku e a indústria da companhia e da atenção;
• O fenômeno das tachinbo e por que não dá para generalizar Tóquio para todo o Japão;
• Massagens, códigos e o significado escondido das placas japonesas;
• Kanji, hanja e as conexões entre o vocabulário japonês e coreano;
• Solidão, trabalho e atenção como mercadoria;
• A Hiroshima que continuou existindo depois de 1945.

📍 Gravação feita em Nagarekawa, Hiroshima, Japão, verão de 2026.

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00:00 – Onze da noite em Hiroshima
01:45 – O arco de neon na entrada: iitomo e as boas-vindas a Nagarekawa
03:23 – Fotógrafo por ofício: o que muda quando a foto é para você mesmo
08:25 – Quando as pessoas largam a cara do dia
08:53 – Os becos que me fascinam
10:33 – Yami-ichi, o mercado das trevas: os becos existem porque o país foi destruído
11:17 – Tekiya e Bakuto: a briga pelo mercado negro e a origem da yakuza daqui
12:20 – Eros Plus Massacre: um ano de livro, trezentos filmes e a Nouvelle Vague japonesa
14:33 – Batalhas Sem Honra e Humanidade: o filme de 73 passado exatamente aqui
18:09 – A placa que eu não tinha entendido: posto de informações gratuito
18:55 – Você não entra direto: o intermediário como arquitetura japonesa
20:48 – A lei de 56 e o artigo 2: uma definição estreita demais
21:43 – Fūzoku e Fūeihō: a indústria que se organizou em volta da própria lei
22:37 – Não é que ninguém respeite a lei: a lei desenhou o mercado
23:32 – As mulheres desta rua: por que “bairro de prostituição” não explica nada
24:25 – Kyaku-hiki, puxar cliente: o que é regulado e o que dá multa
25:21 – Kyabakura, sunakku e stand: quando o que se vende é conversa
26:42 – As categorias do fūzoku: um jogo de nuance entre a lei e o mercado
30:11 – O produto principal não é o sexo: é a atenção
32:16 – Menzu esute e kaishun: a volta da primavera escrita numa placa
35:20 – Massagem pode ser só massagem
42:25 – Encerramento

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28 Comments

  1. Eu achei muito engraçado quando você falou sem falar, sobre "tudo" que que não está exatamente na letra da lei sobre prostituição, ou seja: nada, a gente que interprete… Hahaha…
    Agora, sobre essa necessidade dos japoneses de atenção e de ter algum alívio emocional, chega a me dar um mal estar físico quando lembro as coisas que aprendi quase sem procurar, sobre a sociedade japonesa.
    Coisas como ser comum (há décadas atrás) um menino japonês bater na própria mãe, tô falando de criança de 6/9 anos, para aliviar o estresse da adaptação à escola, mas só os meninos!
    Ou essas entrevistas atuais na rua, onde perguntam para as japonesas casadas se elas consideram traição o marido ir nas prostitutas, e nessa pergunta não há distinção quanto ao tipo de serviço que o marido paga, se é conversa ou "tudo" que pode ser feito sem ultrapassar a lei, e elas alegremente respondem, nesses vídeos, que não, não consideram traição não…
    E num vídeo com a família de um japonês que eu sigo aqui no YouTube, vi a mãe dele falando em japonês com um garçom, logo após ela ter falado com ele, e a voz, a entonação, o volume, tudo, porque eu sei que até o vocabulário que uma mulher usa é diferente das palavras que os homens usam em japonês, saiu aquela vozinha esquisita, submissa, agradável, baixa, diferente do tom normal que ela estava usando na conversa com a família dela, só pra pedir um prato num restaurante!!!
    E a loucura que é pagar por atenção, sendo que essa atenção é performática, segue regras não escritas ainda que óbvias, porque o cliente tem sempre razão…
    O Japão é fascinante e repulsivo ao mesmo tempo, não sei o quanto essa repulsa é atrativa…
    Mas adorei o vídeo!
    Continue!!!

  2. Muito Muito interessante. Gilson vc é muito bom. Videos e comentários inteligentes. Parabéns. Além das curiosidades, as comparações c a Coreia , a China, o Brasil as suas referências tudo é muito Instrutivo. Quero sim mais videos do Japão, até pq amplia o conhecimento tanto do país, como da Coreia.

  3. Gilson mais um aprendizado garantido. Não é simplesmente um vídeo , mas um vídeo aula pois a avidez de assistir me emociona. Gratidão por tentar aprender, sempre, em todos seus vídeos. Parabéns querido Professor , gostei muitoooo tchau 👍🏻👍🏻👍🏻👍🏻⚘️

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