03. Don L – Aquela Fé (feat. Nego Gallo)



Don L – Roteiro Pra Aïnouz vol.3
03 – Aquela Fé (feat. Nego Gallo)

beat: Dj Caique, Deryck Cabrera
produção: Don L e Deryck Cabrera
vocais adicionais: Eddu Ferreira, Terra Preta
mixagem e masterização: Luiz Café

foto: Autumn Sonnichsen
capa: Felipe Felippo
animação: Victor Ciappina

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  1. Ative as legendas para ler as letras. Agora cê pode imaginar que eu fiz flexões até cair de cansaço naquele quartinho da faixa anterior, e quando a câmera dá uma volta de 360 graus pelo cenário e volta pra mim: eu tô sentado no chão da sala de um apartamento no décimo oitavo andar do centro de São Paulo, com vista pra selva de concreto, frenética. Aliás, aquele barraco da faixa anterior também tinha uma vista pra uma outra selva de concreto, só que em frente ao mar, mais ou menos da mesma altura, no topo do morro. Agora as paredes têm reboco e eu tô num cenário de fim de festa, sozinho de novo, em meio às garrafas vazias e bagunça da noite anterior. Sentindo o loop e o peso do cansaço, eu percebo que a diferença principal daquele quarto de favela pra esse apartamento não tá no reboco da parede, nem na vista, nem na cidade, nem em nada em minha volta, mas num tipo de fé ingênua que aquele "velho eu" tinha, e percebendo que perdi em algum ponto do caminho, eu sinto a necessidade dela de volta. Esse é o cenário que eu via quando ouvi pela primeira vez o beat do DJ Caique, que é a instrumental da primeira parte dessa música, no meio de uma dezena que ele tinha me mandado, e eu escutava meio desmotivado, entre uma aba e outra de mensagens de fãs nas redes sociais me falando da relação deles com a minha música. Eu já tava escrevendo uma resposta pra uma dessas mensagens, dizendo pro moleque não seguir meus passos, que não tinha dado muito certo, até que eu percebi que na verdade ele é que tinha o que eu precisava, ele tinha aquela fé que eu tinha perdido, e aí eu só fechei a aba de mensagens e comecei a escrever a música no Evernote. Quando terminei essa parte, pensei que o beat tinha que dar uma virada, a ideia tinha que dar uma virada, minha vida tinha que dar uma virada. Eu tinha que trazer o Constantino nesse som. Eu sempre chamei o Gallo de Constantino [Constantine, o Hellblazer], pela intensidade que ele lida com anjos e demônios na vida dele, e por ser um cara que tem uma fé que sempre me intrigou, que parece que persegue ele e não o contrário. Exorcista de favela. É o cara que o irmão pecador quer trocar uma ideia quando o assunto é muito denso pro pastor. Então a gente faz outro retorno a Fortaleza, na pele de um cara que tava comigo lá em 2007, e que em 2017 tá trampando no resgate de almas, literalmente, nas ruas de Fortaleza, ensinando redução de danos pra viciados em pedra. Quando eu ouvi essa parte que ele diz no verso: “dividindo um café com um mendigo em trapos que canta versos que vivi noutro momento”, reconheci que ele falava do Nathan, moleque que era o fã número 1 do Costa a Costa na quebrada, que em 2016, por aí, eu soube que tava em situação de rua, e nesse dia que o Gallo trombou ele, me mandou um áudio de WhatsApp, cantando um verso nosso daquela época e lembrando um dia que colou num backstage de show nosso, no auge da nossa fé ingênua. Aí tive que chamar o Deryck de novo, e a gente fez aqui em casa a parte final, que eu escrevi enquanto ele criava a linha de piano e já fui gravando a guia, que o Terra Preta depois também ajudou dando um reforço onde minha voz não chega. Eu tinha gravado uma guia do refrão e acabei usando alguns dos meus backings, mas precisava de um cara que conseguisse chegar naquele falsete exatamente como eu queria, com alma, técnica, e a voz ideal. O nome dele é Eddu Ferreira.

  2. 10 anos atras escutava esse som imaginando como estaria minha vida hoje e me imaginava escutando lembrando dessa fase, e não é que deu certo muita coisa o que eu pensava? To conquistando aquela fé

  3. Minha casa tá uma crack house

    As garrafas lembram fases do passado

    Trazem frases de uma má fase

    Como recados de náufragos

    E eu desacreditado

    Leio o e-mail de um fã em crise

    Dizendo que ia correr igual a mim

    Vendendo na esquina

    Até o dia de mandar o mundo se foder e ir embora dali

    Ah, que saudade do que eu nunca mais vi

    No fundo dos meus olhos

    Será memo' que eu me perdi

    Pelos meus caminhos tortos?

    Eu tô cheio desse vazio

    Poluído por corpos, eu num sou daqui

    Minha alma é livre e eu não me comporto

    Eu quero minha fé de volta

    Eu dez ano atrás, eu tenho saudade

    Será que eu consigo lembrar daquela fé

    No fundo dos olhos de um velho eu?

    De um jovem sonhador, eu

    Tem dias que eu acho tudo inútil

    Nossa melhor versão é puro ego, fútil

    Uma luta contra o mundo pra fazer parte do mundo

    Que cê luta contra o quanto é tudo (fake) vulto

    Eu devo tá errado

    Eu sou comunista e curto carros

    Eu quero vencer e faço amizade com fracassados

    Eu quero ser amado assumindo quando amo pa' caralho

    Eu não amo igrejas, quero amar a Cristo

    E sempre fui assim, mas agora, tipo

    Eu sinto falta daquele moleque zica

    Devoto da santa ignorância, um moleque insano

    Inspirado no irmão que me vendia droga

    Eu vendia droga pra uns cara que vendia drogas

    E queria a rima no fone dos cria

    Como se cria o vírus na empresa que vende a vacina

    Eu dez ano atrás, eu tenho saudade

    Será que eu consigo lembrar daquela fé

    No fundo dos olhos de um velho eu?

    Um jovem sonhador, eu

    E é real que incitam guerras pra vender as armas

    Ocultam a verdade pra vender mentiras (dar as cartas)

    Os ricos são os donos do estado

    Que ainda são os filhos dos senhores de escravos

    Que dizimaram os índios

    Compraram os revolucionários ou mataram

    Em nome de um Cristo como o de Bolsonaro (ao contrário)

    Um que não tem amor, ao contrário

    Tudo deturpado!

    Ingenuidade minha, né?

    Querer uma Roc-A-Fella no Brasil, olha a minha fé

    Meus irmão num fecharam o secundário

    Deixaram de ser réu primário e já eram pais

    Ou tiveram que segurar um barraco e já era a paz

    Um a um ficaram pra trás, eu segui a estrada

    Como um sobrevivente de guerra, ou de guerras

    Eu quero aquela fé, sem miséria

    Eu dez ano atrás, eu tenho saudade

    Será que eu consigo lembrar daquela fé

    No fundo dos olhos de um velho eu?

    De um jovem sonhador, eu

    Uma frase muda o fim do filme

    Salve, meu chapa

    Uma frase muda o fim do filme

    Li isso numa timeline

    Acordo com essas frases e essa ideia me persegue

    E essas frases no trânsito pelo corredor

    Eu e minhas neuroses

    Ninguém tá doando amor e do que trouxe a paz outra dose

    Admitam, toda verdade absoluta é uma fraude

    Embucha outro engodo

    Enlouqueci, mas já era tarde

    Não deixei terminar a frase, só deixei ir

    Vaguei, paguei caro

    Sem grana acordei cedo

    Às oito no trampo ainda lido com drogas

    Nesse trampo do centro

    Dividindo um café com um mendigo em trapos

    Que canta versos que eu vivi noutro momento

    Pra lembrar a fé que viu no camarim

    Imagens que falam de mim noutro tempo

    É mais profundo, então sem julgamentos vãos

    Frases de motivação cada um na sua luta

    Esse irmão, vida na lata, lutar nessa situação?

    Sinto que preciso ir

    Dois anos sem ver meu moleque (one loaf of bread)

    O céu assiste as séries

    Se é um filme, eu tô tipo Constantine

    O dedo médio em riste

    Uma frase muda o fim do filme

    À frente a morte não ser uma fraude

    Abutres aplaudem sob o sol forte

    Exalta a humildade só a vida manda ser forte

    Uma frase muda o fim do filme

    Uma frase muda o fim do filme (uma frase muda, ahn)

    Uma frase muda o fim do filme

    Uma frase muda o fim do filme

    Uma frase muda o fim do filme

    Uma frase muda o fim do filme

    Uma frase muda o fim do filme

    São tantos caminhos, tantos desvio

    Que cê pode perder o sentido

    Uma frase muda o fim do filme

    Uma frase muda o fim do filme

    Mas é interno o maior labirinto

    Cê tá ligado bem, amigo

    De volta ao motivo (não)

    De volta ao motivo do motivo

    Mil voltas no mundo em buscas e buscas

    Depois, mais mil voltas em círculo

    Um circo num cerco de insanidade

    A fim de recuperar o que cê já tinha no início

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